Por Priscylla Silva, Redatora SmartNews USA – Charleston, SC
Ação conjunta entre a agência de imigração dos EUA e forças policiais estaduais na Carolina do Sul gera denúncias de perfilamento racial e medo entre imigrantes latinos.

Agentes da lei do SLED (esquerda), DHS (centro) e SCHP (direita) (Reprdução TV ABC news)
Uma operação da agência U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE), que é responsável pelo controle migratório nos Estados Unidos, realizada nos dias 2 e 3 de novembro de 2025, em North Charleston, Carolina do Sul, está gerando forte reação de líderes comunitários e defensores dos direitos dos imigrantes.
O motivo: denúncias de perfilamento racial, ou seja, abordagens feitas com base na aparência ou origem étnica das pessoas.
A ação contou com o apoio da Polícia Rodoviária da Carolina do Sul (SCHP) e da Divisão de Aplicação da Lei do Estado (SLED), mas até o momento as autoridades não divulgaram quantas pessoas foram presas nem os critérios usados para as abordagens.
Como foi a operação
Moradores relataram que agentes fizeram uma série de paradas de trânsito em áreas com grande presença de imigrantes, principalmente nas avenidas Rivers Avenue e Remount Road, em North Charleston. Segundo testemunhas, a maioria dos motoristas detidos tinha aparência latina.
Em alguns casos, homens foram levados em carros descaracterizados, sem explicação sobre o motivo da prisão. Testemunhas afirmam que os agentes não se identificaram e se recusaram a responder perguntas.
Uma mulher que presenciou uma das abordagens contou à imprensa local que tentou entregar um cartão com informações sobre direitos civis em espanhol a um homem algemado, mas ele não conseguiu segurar o papel. “Ele me pediu para colocar o cartão na boca. Aquilo foi desumano”, disse ela, emocionada.
Críticas e reações da comunidade
A operação causou revolta e medo entre imigrantes. Organizações de direitos civis acusam as autoridades de discriminação racial e de violar o direito de ir e vir.
“Quando dirigir sendo uma pessoa morena ou latina passa a ser motivo de prisão, a comunidade perde totalmente a confiança na polícia”, afirmou Dulce López, representante da ACLU da Carolina do Sul (Associação Americana de Liberdades Civis).
Segundo líderes locais, desde a operação, muitas famílias estão com medo de sair de casa. “As pessoas estão evitando dirigir, levar os filhos à escola ou ir ao mercado. O medo tomou conta”, disse Lucía Peña, da organização comunitária CSO (Community Service Organization).
Entenda o contexto legal
A Carolina do Sul participa de um acordo com o governo federal chamado Programa 287(g), que permite que policiais estaduais e locais atuem em conjunto com agentes de imigração para identificar e prender estrangeiros em situação irregular.
O condado de Charleston voltou a integrar o programa em março de 2025, e o Departamento Estadual de Segurança Pública passou a cooperar com o ICE em agosto do mesmo ano.
Críticos afirmam que o 287(g) aumenta os riscos de abusos, pois transforma agentes locais, que deveriam proteger a comunidade, em extensões da imigração federal, minando a confiança dos imigrantes na polícia.
Consequências e debate público
Embora o ICE afirme que suas ações são direcionadas a estrangeiros com antecedentes criminais, as comunidades locais denunciam falta de transparência e critério duvidoso nas abordagens.
Defensores dos direitos humanos pedem que o governo revele quantas pessoas foram presas, por quais motivos e se houve mandados judiciais.
Enquanto isso, o clima de tensão continua. “O medo não acaba quando a operação termina. Ele permanece no dia a dia das famílias”, disse Lucía Peña.
A polêmica reacendeu o debate sobre até que ponto a colaboração entre agências estaduais e o ICE contribui para a segurança pública, ou apenas aumenta o medo e a segregação racial nas comunidades imigrantes.
//Fontes: ABC News 4; WTMA; U.S. Immigration & Customs Enforcement